60% dos grandes rios do mundo já não correm livremente

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Um estudo internacional publicado na revista Global Change Biology mostra preocupantes níveis de degradação dos rios em todo o mundo.

Liderado por Maria João Mal-parecido, do Núcleo de Ciências do Mar e do Envolvente (MARE) e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), leste estudo reuniu três dezenas de investigadores de todo o mundo e visou estudar o estado biológico dos rios, com base em dois bioindicadores usados na monitorização dos rios – os macroinvertebrados bentónicos e os peixes.

Assim, foram analisados conjuntamente resultados de programas de monitorização de 45 países (64 regiões de estudo) de todos os continentes e, em privado, um grande número de áreas de países pertencentes ao nomeado Sul Global (Global South).

Os países do Sul Global “têm as maiores reservas de biodiversidade de águas doces do mundo, mas que têm sido menos estudadas ou cujos dados não são conhecidos», indica Maria João Mal-parecido, clarificando que entre esses países estão a «China, Nepal, Nigéria, Brasil, África do Sul, Vietname ou Camboja».

Esta investigação contém também dados de áreas consideradas hotspots de biodiversidade, porquê é o caso da Amazónia, e de países porquê o Japão ou a Coreia do Sul, que até agora não estavam acessíveis à comunidade internacional.

Os cientistas analisaram também a influência do desenvolvimento humano e alterações antropogénicas sobre a qualidade biológica dos rios, «o que é principal para perceber que medidas devem ser implementadas a nível global», defende a investigadora do MARE/FCTUC.

Os resultados deste estudo mostram «preocupantes níveis de degradação nos ecossistemas ribeirinhos, com menos de metade dos troços estudados em boa qualidade biológica (42 a 50%, dependendo do elemento biológico – peixe ou invertebrados) e murado de 30% severamente degradados.

As piores condições foram encontradas em climas áridos e equatoriais», destaca Maria João Mal-parecido.

A pesquisador sublinha ainda que, dos fatores estudados, os que mais influenciam negativamente os rios são a “má qualidade físico-química da chuva (uma verdade principalmente em África, na Ásia e na América do Sul), o facto de existirem menos áreas protegidas para rios e um maior nível de desenvolvimento humano, que se pode transcrever numa maior história de alterações no uso do solo por cultivação, indústria e urbanização”.

Em oposição, o aumento da extensão de floresta e a melhor qualidade da chuva são fatores que estão associados a «melhor qualidade biológica dos rios».

No que respeita a países em desenvolvimento, estes apresentam «as maiores percentagens de locais moderadamente impactados, o que pode indicar uma tendência recente para a degradação dos mesmos», prossegue.

O estudo revela que as comunidades de peixes se encontram em piores condições do que as dos invertebrados.

Por exemplo, «na grande bacia australiana de Murray-Darling, 56% dos locais estão severamente alterados, o que pode ser devido ao efeito das quatro milénio barreiras à movimento dos mesmos ao longo do rio, porquê as barragens ou açudes.

Estas encontram-se amplamente espalhadas pelos rios do Mundo, oferecido que murado de 63% dos grandes rios já não correm livremente», explica a investigadora, notando que «isto é particularmente relevante quando se sabe que está a ser planeado um grande número de novos aproveitamentos hidráulicos para a América do Sul e Ásia».

Num observação global às conclusões do estudo, Maria João Mal-parecido entende que refletem a «perda de biodiversidade das águas doces, muito porquê a mudança nos padrões de distribuição das espécies, nomeadamente com o crescente aumento de espécies invasoras.

Tudo isto altera o funcionamento dos ecossistemas ribeirinhos, levando à perda de serviços fornecidos por estes ecossistemas às populações (desde o fornecimento de chuva à regulação climática ou à prevenção de doenças)».

Por isso, conclui, é principal continuar a monitorizar os rios em todo o mundo, “desde aqueles onde nunca se fez zero a outros que viram os seus programas serem suspensos”.

Aliás, diz a investigadora, “é principal planear medidas de recuperação e o nosso estudo mostra que estabelecer áreas protegidas para rios ou melhorar as florestas são soluções eficientes”.

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