A incrível história do pénis de Napoleão Bonaparte

0
302

Jacques-Louis David / Wikimedia

Napoleão Bonaparte

O órgão sexual do Imperador gaulês terá sido desassociado durante a sua necropsia. Entre histórias de vingança de criados e vários leilões, não há confirmação de que o pénis em questão seja verdadeiramente de Napoleão — mas isso não impede o fascínio com a relíquia.

Numa pequena caixinha de pele, deteriorado e ressecado pelo tempo, um pénis humano está guardado a sete chaves pela filha de um urologista americano.

Com 3,8 centímetros, o mica humano é considerado uma bizarra relíquia. Seria o órgão sexual do estadista e líder militar gaulês Napoleão Bonaparte (1769-1821), uma das personalidades políticas mais conhecidas da história da humanidade.

Há mais mistério do que confirmações a saudação da curiosa peça. Responsável de um item sobre o tema, o historiador Vítor Soares, que tem o podcast História em Meia Hora, afirma à BBC que “as coisas não são assim tão consensuais”.

“Embora por muito tempo as pessoas tivessem a certeza de que o pénis era dele, há a possibilidade de não ser. Nunca foi comprovado que realmente seja“, salvaguarda.

Investigador integrante do grupo da Universidade Estadual Paulista e professor no Escola Presbiteriano Mackenzie Tamboré, o historiador Victor Missiato tem uma opinião semelhante.

“É difícil provar que, de facto, esse pénis pertença a Napoleão Bonaparte, porque não há nenhum estudo que relaciona o material genético desse pénis com o dos sobras mortais de Napoleão, sepultado na França”, argumenta. “Hoje em dia, com as tecnologias disponíveis, seria provável, valeria a pena.”

“O que há é uma trajetória [do órgão sexual atribuído ao estadista]. É factível que seja dele porque já na quadra havia uma valor histórica, um significado em torno de Napoleão”, explica Missiato.

Essa trajetória foi amplamente acompanhada pelo historiador e jornalista Tony Perrottet no seu livro Napoleon’s Privates: 2500 Years of History Unzipped. Partindo do que é notoriamente comprovado: que quando morreu, na Ilhota de Santa Helena, em 5 de maio de 1821, foi submetido a uma necropsia.

Se a subtração do membro realmente ocorreu, provavelmente foi avante de testemunhas. Relatos indicam que havia 29 pessoas próximas do corpo de Bonaparte da morte à preparação para o enterro, entre elas oito médicos, duas criadas, um padre e um serviçal.

A amputação peniana teria sido feita pelo médico François Carlo Antommarchi (1780-1838). Alguns acreditam que tenha sido por vingança porque o médico teria sido encarregado meio a contragosto de passar uma temporada na ilhéu para cuidar da saúde já debilitada — que padecia de uma úlcera no estômago e, provavelmente, terá morrido de cancro — de Bonaparte.

Para piorar, conta-se que o médico costumava ser destratado pelo seu paciente ilustre, que não raras vezes o insultava e lhe cuspia em cima.

O caminho de um órgão sexual

Segundo os estudos de Perrottet, Antommarchi teria vendido a relíquia íntima ao padre italiano Ange Paulo Vignali, encarregado de dar a extrema-unção em Bonaparte. Nascente levou-a para a Córsega — terreno natal do falecido e também dele, o sacerdote.

Soares diz que as discrepâncias já começam aí, porque outras teorias acusam o próprio padre de ter subtraído o superior membro, outras trabalham com a possibilidade de que tudo havia sido combinado entre os médicos presentes — já que a retirada e preservação de partes do corpo de personalidades não é um tanto incomum na história.

Em 1916, o arqueólogo britânico Maggs Bros comprou o item, que estava guardado pela família do padre da Córsega. Nas cinco décadas seguintes, o órgão sexual atribuído ao ex-imperador gaulês tornou-se objeto de curiosidade pelo mundo.

O pénis mudaria de mãos alguns anos mais tarde. Considerado “o terror da sala de leilões”, pela sua participação sempre financeiramente agressiva nos leilões promovidos pela Sotheby’s, em Londres, o colecionador e livreiro norte-americano Abraham Simon Wolf Rosenbach (1876-1952) arrematou um lote de preciosidades em 1924. O conjunto incluía a preciosidade napoleónica.

É a partir daí, quando a peça é levada aos Estados Unidos, que começa a viver uma documentação — precária, evidentemente — para tentar provar a sua autenticidade. A própria empresa de Rosenbach publicou um catálogo nos anos 1920 enfatizando que “a notável relíquia foi recentemente confirmada pela publicação na Revue des Deux Mondes de trecho de memórias póstumas de St. Denis, na qual ele diz expressamente que ele e Vignali levaram pequenos pedaços do corpo de Napoleão durante o trabalho de necropsia”.

Curiosamente, o catálogo usa um eufemismo para nomear o órgão. Diz o texto que se trata de “um tendão mumificado retirado do corpo de Napoleão durante a necropsia”. St. Denis, citado no texto, era Louis Etienne Saint-Denis (1788-1856), criado pessoal do ex-imperador.

Foi Rosenbach quem acondicionou o pénis da forma porquê ele se encontra hoje, numa caixinha de pele de Marrocos azul, aveludada. De congraçamento com texto solene da hoje organização Rosenbach, o colecionador “deleitava-se” quando falava “sobre as notórias relíquias de Napoleão“.

Em 1927, a peça foi exibida publicamente no Museu de Arte Francesa de Novidade York. Conforme relatos da prelo da quadra, a exposição provocou “suspiros dos sentimentais” e “risadinhas das mulheres“. O pénis de Napoleão chegou a ser comparado a “uma enguia enrugada“.

Rosenbach vendeu a relíquia a um dos seus melhores clientes, o bibliófilo Donald Frizell Hyde (1909-1966), que foi presidente da Sociedade Bibliográfica da América. Quando morreu, a sua viúva devolveu o objeto aos sucessores de Rosenbach.

Pouco tempo depois, o pénis famoso foi comprado pelo colecionador Bruce Gilmeson, que o tentou leiloar na vivenda de leilões Christie’s, em Londres, em 1972. Foi um fracasso. Sem receber o valor mínimo, o órgão voltou para a coleção de Gilmeson.

O urologista que guardou o membro

Cinco anos mais tarde, todavia, o pénis foi parar às mãos do urologista americano John Kingsley Lattimer (1914-2007), notório professor da Universidade de Colúmbia, afeito a colecionar objetos históricos

A partir de portanto, o pénis de Napoleão voltou a lucrar privacidade. Lattimer não exibia o membro famoso, reservando-o exclusivamente a círculos mais íntimos — calcula-se que menos de 10 pessoas o tenham visto desde portanto.

Foi o urologista que propagou a versão de que a extirpação do órgão sexual tenha ocorrido por vingança do médico. Quando Lattimer morreu, o órgão sexual ficou com a sua filha, que segue à risca o pedido do pai para não mostrar o pénis a ninguém.

Outras partes

Soares lembra que o órgão sexual não foi o único pedaço do corpo de Napoleão Bonaparte que teria sido retirado no momento da necropsia. O criado Denis, por exemplo, afirmou que se aproveitou de um momento de distração dos médicos para tirar alguns pedaços das costelas do defunto.

Conta-se que o próprio ex-imperador havia manifestado o libido de que o seu coração fosse retirado e enviado porquê presente para a sua esposa — mas esta vontade não foi realizada.

A teoria de preservar órgãos e tecidos de personalidades mortas não é incomum ao longo da história. Por cá, é famoso o caso do coração de Dom Pedro I (1798-1834), trazido ao país nesta semana para tomar segmento das celebrações do bicentenário da Independência — proclamada por ele, que se tornaria o primeiro imperador do Brasil.

PUBLICIDADE

Deixe um comentário