Chuva de agrotóxicos envenena reduto de lavoura

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Uma avião lançou agrotóxicos sobre áreas de cultivo de moca orgânico, frutas e hortaliças no sul do Amazonas. Até portanto inédita na região, a “chuva” de veneno foi direcionada às últimas comunidades remanescentes de pequenos produtores no município de Apuí, que resistem ao progresso da pecuária extensiva.

A substância química causou danos em culturas de laranja, limão, mandioca, jerimum, gergelim e eucalipto. Pelo menos dez agricultores sofreram intoxicação e tiveram a produção prejudicada. Duas das propriedades atingidas produzem moca orgânico, no sistema de agrofloresta.

Desde o último término de semana, quando ocorreu o resíduo, moradores temem novos ataques e analisam se é provável restaurar as lavouras. As principais áreas afetadas são dois setores chamados Raulino e Coruja, sobre 20 quilômetros da extensão urbana de Apuí.  

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A Polícia Social afirmou ter identificado o mandante do delito, mas não revelou sua identidade, nem se a ação teve uma vez que objetivo intimidar os agricultores. Na terça-feira (22), policiais colheram amostras da vegetação que serão periciadas em Manaus (AM). 

Com um dos maiores índices de desmatamento do estado, Apuí vê cada vez mais áreas de floresta serem convertidas em pastos. Sem escolha econômica, agricultores que chegaram à região há quatro décadas têm vendido terras aos pecuaristas e esquecido a extensão. 


Coincidência? Únicas áreas afetadas por veneno são últimos remanescentes da lavoura familiar / Reprodução/Wikipedia/Incra

Sete vezes mais boi do que gente 

A ocupação da região atingida pelos agrotóxicos remonta ao início da dezena de 80, quando o Incra criou o Assentamento Rio Juma, o maior da América Latina. Com capacidade para 7.500 famílias, o objetivo era atrair colonos principalmente do Paraná. O município de Apuí seria criado anos depois, em 1988. 

Hoje as terras da lavoura familiar estão no caminho da expansão da fronteira agropecuária, que chega principalmente por meio da BR-230, a rodovia Transamazônica. A falta de infraestrutura, uma vez que rotas de escoamento da produção, também é um fator de evasão dos assentados. 

“A dinâmica lá está muito grande de procura por terreno, uma vez que nunca se viu. As famílias, com pouca assistência para permanecer no setor primordial, uma carência histórica no Brasil, elas vão vendendo terreno. E essa terreno está sendo desmatada para pasto”, afirmou a coordenadora técnica do projeto Moca Apuí, Marina Yasbek Reia, em entrevista ao Brasil de Roupa em agosto do ano pretérito. 

Em 2021, Apuí liderou o ranking de cidades com mais focos de queimadas no estado do Amazonas, junto com o município de Lábrea (AM), segundo dados da Secretaria Estadual de Meio Envolvente (Sema).

Nos últimos anos, o sul do Amazonas foi convertido em um polo de produção de músculos bovina no estado. Do tamanho do Rio Grande do Setentrião, Apuí tem 160 milénio cabeças de rebanho, sete vezes mais do que a quantidade de moradores, estimada em 22,7 milénio pelo IBGE.  

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Conquistas ameaçadas 

Mesmo assim, Apuí dá exemplo na produção de moca orgânico. Atualmente mais de 30 famílias têm no resultado sua principal renda anual. Desde a dezena de 1980, o moca já era cultivado pelos moradores, mas, nos anos 2000, começou a entrar em declínio.

O cultivo ganhou novo fôlego com a introdução da agrofloresta, método que une plantações de valor mercantil com árvores que ajudam a temperar o solo. O projeto foi implementado com auxílio técnico do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

O resultado foi o aumento da produtividade e a preservação ambiental, além da obtenção do selo orgânico, conquistas ameaçadas pela pressão da pecuária. Procurado pela reportagem, o Idesam afirmou que emitirá posicionamento em nota a ser publicada em breve.



Mais de 30 famílias participam do projeto Moca Apuí, que introduziu o cultivo agroflorestal nos cafezais / Idesam

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Identidade do mandante permanece em sigilo 

Na terça-feira (22), as polícias Social, Militar, Federalista e Militar Ambiental estiveram na extensão mais prejudicada pela “chuva de agrotóxicos”. Eles constataram a ruinoso das plantações e coletaram amostras da vegetação atingida. 

O questionário descerrado sobre o caso investiga crimes ambientais, além de intoxicação humana e danos materiais. A Polícia Social identificou o piloto da avião que lançou a substância de maneira irregular. Ele se propôs a arcar com o prejuízo que provocou aos agricultores. 

O contratante do serviço também foi identificado pela investigação, mas sua identidade permanece em sigilo. Um expedido da Polícia Social se limitou a manifestar que o mandante “tentou fugir das responsabilidades”, sem informar se houve prisão. 

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Segundo um produtor de moca ouvido pela Polícia Social, o primeiro sinal de contaminação foi o desaparecimento de pássaros e insetos que se alimentam das plantações. Dias depois, as folhas começaram a amarelar. 

O material foi enviado para o Instituto de Criminalística (IC) do Amazonas, em Manaus, onde passará por perícia. O objetivo é identificar qual substância foi utilizada e fundamentar o uso dos agrotóxicos de maneira irregular. 

“O objetivo da diligência foi colher os vegetais afetados para enviar a perícia técnica e verificar se o agrotóxico estava licenciado pelos órgão de controle da União, Ministério da Cultivação, Pecuária e Provisão, além de averiguar as colônias que foram afetadas”, disse o mandatário Francisco Rocha.

Edição: Camila Salmazio

Natividade: Brasil de Roupa

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