De Filipe I à Revolução Americana, a doença dos reis mudou a história

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Rei Filipe I

A pingo ficou conhecida uma vez que a “doença dos reis” devido à sua aparente preferência pelos monarcas. A sua marca fez-se sentir em vários momentos da história — e até pode ter sido decisiva para o progresso da Revolução Americana.

Já muitas doenças devastaram o mundo. Desde a arrebatadora peste negra que dizimou um terço da população europeia na Idade Média, a doenças que se concentram mais em certas regiões, uma vez que a malária em África, sem olvidar a covid-19, que em 2020 parou o mundo.

Mas nem todos sofremos com as mesmas doenças — e a pingo é um exemplo disso. Conhecida uma vez que a “doença dos reis”, era de esperar que a pingo tivesse um impacto pessoal no rumo da história e na vida dos monarcas que dela padeceram.

A pingo é uma doença caracterizada pelo aumento do ácido úrico no sangue e a sua cristalização em monourato de sódio. Quando acumulados nas articulações, estes cristais causam surtos de artrite aguda, com grande desconforto e dor e frequentemente causam deformações nas mãos e nas nos pés.

Uma das principais causas da pingo é uma ter dieta rica em mesocarpo e álcool, o que pode ajudar a explicar a incidência acrescida desta doença nos monarcas, que eram geralmente adeptos deste tipo de alimento pouco recomendável.

O impacto político da pingo

O infâme Henrique VIII foi um dos mais famosos reis a tolerar com a pingo. Tal uma vez que os seus vários retratos dão a entender, o rei inglês tinha excesso de peso, peso esse que ganhou depois de ter sofrido uma lesão quando era jovem (provavelmente durante um torneio de justas) que o impediu de fazer manobra.

Com a falta de manobra e a sua dieta pouco saudável, Henrique VIII foi acumulando quilos a mais e a sua cintura chegou mesmo a medir 132 centímetros. A sua pingo começou a dar sinais de agravamento e o rei acabou por deixar de conseguir caminhar, tendo de ser sobrecarregado numa cadeira. A sua frustração com a doença terá sido uma das causas para o seu regular mau humor.

Piero di Cosimo de Medici, governador de Florença entre 1464 e 1469, também sofreu com a doença, tanto que até recebeu a cognome Piero, o Gotoso. A sua saúde fragilizada foi uma regular ao longo da vida e a sua pingo era tão grave que até o deixou acamado e acabou por o matar aos 53 anos, em 1469.

A sua imagem enquanto líder ficou foi afectada pelos seus problemas de saúde, tendo até sido vítima de uma tentativa de golpe por secção de alguns familiares que achavam que era sobejo fraco para governar, escreve o Ancient Origins.

A pingo na reino portuguesa

E se Piero quase foi retirado do poder por culpa da sua pingo, Carlos V acabou por ser mesmo. O Imperador do Sacro Predomínio Romano-Germânico que foi também rei de Espanha e casou com Isabel de Portugal, filha de Manuel I, governou desde 1519 até 1556. Ao longo do seu reinado, ganhou uma reputação por consumir muita mesocarpo e exagerar no vinho e na cerveja.

A sua pingo acabou por ser tão grave que o deixou rengo e o impossibilitou de liderar o tropa. Quando a França conquistou Metz em 1552, Carlos atrasou o seu contra-ataque devido a uma crise de pingo, o que lhe custou uma pesada guia. O imperador acabou por renuir depois da humilhação até chorou no seu exposição, culpando a pingo pelos seus fracassos.

Em Portugal também houve um caso mortal de pingo — zero mais zero menos do que o fruto de Carlos V, o rei Filipe I de Portugal e II de Espanha. Filipe I teve o primeiro surto de pingo aos 36 anos e o seu estado agravou-se a partir dos 40 anos, a sua saúde ficou ainda mais frágil e o rei acabou por perder a mobilidade por culpa da doença.

Já no leito da sua morte, reza a história que o odor que emanava da leito do rei era quase insuportável, devido as chagas e à incontinência urinária de que também sofria. A pingo impedia o rei de tomar banho, alguma coisa que o desgostava bastante. Filipe I acabou por morrer a 13 de setemebro de 1598.

A pingo e a Revolução Americana

A pingo também deixou marcas na história dos Estados Unidos da América. William Pitt ocupou o missão de primeiro-ministro inglês, mas tinha uma famosa simpatia próprio pelos americanos.

O político inglês também sofria de pingo — e a sua doença acabou por ser decisiva num momento que marcou o início da tensão entre ingleses e americanos que acabou por culminar na independência americana. Tudo porque quando o Parlamento britânico aprovou a Lei do Selo em 1765, que obrigava os colonos a remunerar impostos pesados sobre vários produtos, Pitt faltou à sessão parlamentar por estar doente.

Quando voltou ao trabalho, Pitt rapidamente reverteu a lei argumentando que “os americanos são os filhos, não os bastardos da Inglaterra“. Mas a sua tentativa de acalmar a revolta do outro lado do Atlântico foi sol de pouca dura.

Durante a sua crise de pingo seguinte, o Parlamento voltou a desafiar a sua vontade e aprovou um enorme aumento de impostos sobre as importações de chá feitas pelos colonos – uma decisão que motivou a famosa Boston Tea Party que acendeu o espírito independentista nos Estados Unidos.

Quem sabe, se Pitt não tivesse sofrido com penosas crises da doença dos reis nestes momentos decisivos, talvez hoje em os Estados Unidos continuassem a ser território de Sua Majestade.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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