Documentário narra cotidiano de artista presa por pichação

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Em outubro de 2008, um grupo com cerca de 40 pessoas invadiu a 28ª Bienal Internacional de São Paulo e pichou as paredes de um andar vazio do prédio ocupado pela exposição. A manifestação, que questionava a exclusão e o conceito de arte, terminou com uma única pessoa detida: Caroline Pivetta, que na época tinha 24 anos.

A artista ficou reclusa por quase dois meses na Penitenciária Feminina de Santana (zona norte da cidade de São Paulo), acusada pelo crime de “Destruição de bem protegido por lei”, embora nenhum dano tenha sido causado às estruturas das paredes que receberam a intervenção.

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Dez anos depois, Carol virou tema do documentário Pivetta (assista aqui), disponível gratuitamente na internet até 5 de dezembro, quando termina a edição da Bienal deste ano. Mais do que analisar o que se tornou a vida da personagem uma década após o fato histórico, o curta metragem narra com sutileza o cotidiano de mãe, mulher e artista crítica da pichadora

A produtora-executiva do filme, Tereza Novaes, reafirma a força da história de Pivetta como criadora e representante da linguagem artística da pichação. “Ela é uma artista, se reconhece como tal e acredita muito nela e no trabalho dela. Ela faz algo que é combatido, que as pessoas não entendem”. explicou

Em entrevista ao programa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Tereza ressalta, no entanto, que a condução do curta vai além dessa representação. Na tela, está a Caroline Pivetta que é mãe solo, em um cotidiano que é dividido por mulheres do mundo todo. Na criação da filha, a artista mostra valores construídos e permeados pela arte.

“Esta pessoa tem que ter uma força muito grande e nós, mulheres, sabemos disso. Ser minoria em um espaço é sempre difícil”, pontua a produtora. Tereza completa, “Não gosto de usar clichês, mas esse é um  feminista. Mostra a luta de uma mulher e mostra a luta de uma mãe”.

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A Bienal do Vazio

Com participação de pouco mais de 40 artistas e exposição de somente 54 obras, a edição de 2008 da Bienal teve um andar inteiro vazio, por escolha da própria curadoria. No site da instituição, o espaço é descrito com uma “metáfora clara da crise conceitual atravessada pelos sistemas expositivos tradicionais”.

Tratada sem grandes detalhes, a intervenção pichada está em apenas um linha, “os limites de apropriação do espaço por artistas e pichadores estiveram em permanente discussão”, diz a página. Nenhuma menção é dedicada à história de Caroline Pivetta.

O documentário Pivetta acompanhou uma visita de Carol e da filha Ísis à edição de 2018 da mostra. Ao passear pelo espaço, a pequena demonstra tanto interesse pelas obras, que não se contem e tenta formas de interação.

Em resposta, ouve as protocolares e típicas respostas de seguranças, “não pode tocar”, “não pode sentar”, “não pode mexer”. Carol desabafa: “Esse tipo de coisa que eu acho ridículo, vir em um bagulho de arte e não poder interagir”.

Dez anos após a prisão da artista, pouco mudou na estrutura tradicional da Bienal. Embora tenha se proposto a discutir a crise do próprio formato, a estrutura de museu e o distanciamento entre arte e público seguem como regra. 

 

Edição: Vinícius Segalla

Fonte: Brasil de Fato