Em seguida PM ser promovido, vítima que perdeu olho em ato no Recife

0
4765

Enquanto o Governo de Pernambuco bonifica com uma promoção a major o policial militar Elton Sumo de Macedo, investigado por envolvimento na operação violenta no protesto de 29 de maio de 2021, Daniel Campelo da Silva sente o deserção do Estado.

Vítima da ação truculenta, o portanto adesivador de carros de 51 anos perdeu o olho depois levar tiros de projéctil de borracha, um deles no rosto. Agora, ele questiona a falta de assistência prestada pelo poder público no seu caso e pede rapidez na licença de auxílio enquanto caminha na Justiça o processo que moveu contra o Estado.

Leia cá: Governo de PE promove PM investigado por operação que cegou dois homens no protesto no Recife

A vida de Daniel nunca mais foi a mesma depois que seu caminho cruzou com do Batalhão de Choque naquele dia, na Ponte Duarte Coelho, na superfície médio do Recife. “Voltar ao que era é impossível. Minha situação é irreversível. Não tem numerário nenhum que pague a perda de um órgão, principalmente quando se é saudável”, lamenta.

Relembrar os acontecimentos daquela tarde é uma tarefa dolorosa. “Eu passo por ali eu vejo tudo novamente”, fala, recontando as memórias de ter o socorro recusado pela Rádio Ronda da Polícia Militar, de caminhar até a Ponte de Ferro, de ser amparado por outros civis, e de ser levado para o Hospital da Restauração por um taxista que passava na hora.

Junto com a visão, foi-se embora também sua saúde mental, a requisito de exercitar sua profissão e a de sustentar a si, a esposa, os cinco filhos (com mais um a caminho) e três netos. “Eu perdi tudo isso. Não tenho porquê trabalhar, porquê me mudar, estou com o psicológico exitante, não durmo recta, a preocupação é grande, tem a família. Estou tendo dificuldade com tudo. Já passei por três a quatro cirurgias, e ainda devo passar por mais duas. Isso tudo está mexendo com minha vida”, conta.

Leia também: Ação truculenta da PM em ato no Recife compromete a visão de dois trabalhadores

O resultado disso são contas e mais contas acumuladas para remunerar e a falta de provisões na sua vivenda, localizada no bairro de Torrões, na Zona Oeste da capital. A manutenção do lar depende substancialmente de doações que recebe. “Amigos e colegas mandam ajuda quando podem. Se não fosse isso, porquê ia ser?”, questiona.

Nesse contexto, não é o traje de o policial ter sido promovido em si que o incomoda, diz, levando em conta o princípio da presunção da inocência. “É constitucional. Porém, o que eu fico revoltado e chateado é o descaso do Governo com minha pessoa. Ele conseguiu conceder tão rápido essa promoção, e na minha situação não está resolvendo zero”, critica. 

Leia mais: “Projéctil no olho não é um eventualidade”, afirma vereadora do PCdoB sobre ação da PM no Recife

À estação do ocorrido, ele e Jonas Correia, o outro varão que também perdeu um olho na mesma situação, foram contemplados com cestas básicas e com um auxílio emergencial pelo período de três meses – prazo sumo desse tipo de pagamento assistencial. Marcelus Ugiette, um dos advogados de Daniel, afirmou que o primeiro valor que o Governo de Pernambuco ofereceu foi de exclusivamente meio salário mínimo. No entanto, em tratativas com a Promotoria do Estado e a Secretaria de Justiça e de Direitos Humanos, ele solicitou que fosse aumentado para o teto do auxílio.

“Pedimos dois salários mínimos, para que eles pudessem consumir, remunerar táxi, comprar remédio, já que ficaram sem trabalhar. Isso durou três meses. Nós pedimos para que o Estado renovasse o auxílio emergencial, e apesar de a gente ter requerido formalmente, ele não renovou”, aponta o jurisconsulto.

Em uma dessas reuniões, o Governo ofereceu uma indenização no valor de R$ 150 milénio a Daniel Campelo, que não aceitou. No último dia 10, ele entrou na Justiça com uma ação de indenização por danos morais e patrimoniais no valor de R$ 4 milhões. Ou por outra, também foi pedida uma tutela de urgência de modo liminar para o recebimento de uma pensão até que o processo fosse julgado, ato que o juiz deferiu e estabeleceu o valor de dois salários mínimos.

“O que acontece muitas vezes é que o Estado faz tudo para que o processo demore, recorre de tudo, e quando vê a pessoa morreu. Até para os familiares receberem morosidade. Essa pensão é para que ele pelo menos possa consumir”, afirma Ugiette. 

:: Movimentos, sindicatos e até ministro do STF repudiam ação truculenta da PM em Recife ::

O Governo tem um prazo de 30 dias a narrar da citação para principiar a remunerar o valor. “Mesmo que esteja dentro da lei, se o governador [Paulo Câmara] fosse um pouco sensível, já sabendo da regra judicial, ele poderia antecipar e principiar a remunerar antes, já que o Estado teve uma pressa danada ao promover o [policial Elton de Macedo]”, declara.

Relembre o caso

No dia 29 de maio de 2021, a população saiu às ruas de todo o Brasil contra o Governo Bolsonaro em mais de 200 atos organizados por movimentos populares. O protesto do Recife ficou marcada pela ação desmedida da Polícia Militar, que usou bombas, spray de pimenta e tiros de projéctil de borracha para dissiminar o protesto quando ele já chegava ao término, nas proximidades da Ponte Duarte Coelho, entre a Rua da Aurora e a Avenida Conde da Boa Vista, na superfície médio da capital.

:: O #29M no Recife e o atentado contra a democracia ::

Dois homens que não participavam do ato e exclusivamente passavam pelo lugar foram atingidos por projéteis no rosto. Tanto o adesivador de carros Daniel Campelo da Silva, de 51 anos, quanto o arrumador de contêiner Jonas Correia de França, 29, perderam um olho em razão dos ferimentos.

Outras cenas de violência policial foram registradas na ocasião. A vereadora do Recife Liana Cirne (PT) foi agredida com spray de pimenta ao tentar falar com um policial que entrava em uma viatura. O jurisconsulto Roberto Rocha Leandro, presidente da Percentagem de Recta Parlamentar da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB) e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), levou quatro tiros de projéctil de borracha.


Em seu posicionamento solene, divulgado no mesmo dia, o governador Paulo Câmara (PSB) afirmou que a ordem de reprimir o protesto com violência não partiu do Palácio do Campo das Princesas. Ele também comunicou que a Corregedoria da Secretaria de Resguardo Social (SDS) investigaria o caso para prescrever as responsabilidades dos envolvidos. No totalidade, 16 policiais, sendo três oficiais – o tenente Tiago Roble da Silva e o capitão Elton Sumo de Macedo, do Batalhão de Choque, e o major Gilson Monteiro da Silva, do 13° Batalhão – e 13 praças, foram afastados até a finalização do questionário.

Seis dias depois o ocorrido, o portanto secretário da SDS Antônio de Pádua colocou seu incumbência à disposição, e o governador o exonerou. Até hoje, a apuração não foi concluída e ninguém foi responsabilizado por ter oferecido o comando para a PM atirar nos manifestantes.

Natividade: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga

Natividade: Brasil de Indumento

Deixe um comentário