Empresa de “tradução de sotaques” quer tornar vozes de call center mais “brancas”

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Kampus Production / Pexels

Uma startup de “tradução de sotaques” em Silicon Valley quer tornar as vozes dos call centers mais “brancas” e mais americanas.

As empresas norte-americanas têm, por norma, o hábito de subcontratar empresas indianas para os seus call centers por uma multitude de razões: fuso horário profíquo, salários baixos e grande população de língua inglesa.

Por isso, quando atende uma chamada de telemarketing ou quando liga para um atendimento ao cliente nos Estado Unidos, regra universal, ouvirá uma voz com sotaque indiano.

A procura por um sotaque global neutro no setor dos call centers levou a que muitos trabalhadores indianos se vissem despojados da sua língua materna. O problema já tinha sido exposto, há mais de uma dezena, num cláusula do jornal The Guardian.

Muitos funcionários dos call centers até se fazem passar por pessoas norte-americanas, utilizando nomes ocidentais falsos e fingindo um sotaque com que os americanos se identifiquem. Há até sites que oferecem formações para treinar estes sotaques.

É cá que entra a Sanas, uma startup de Silicon Valley. O seu objetivo passa por tornar os trabalhadores dos call centers mais “brancos” e americanos, independentemente do seu país de origem.

O próprio site da empresa permite observar a uma prova da tecnologia da Sanas em tempo real. Com um simples clique, a voz de um trabalhador de call center transforma-se de um sotaque indiano para um sotaque “branco” — e irremediavelmente com uma sonoridade robotizada.

A empresa de “tradução de sotaque” já angariou 32 milhões de dólares numa primeira ronda de financiamento. A teoria é iniciar pelos call centers, mas a Sanas planeia expandir-se para cinema e televisão.

“Não queremos expor que sotaques são um problema por você ter um”, salientou o presidente da Sanas, Marty Sarim, em declarações ao SFGATE. “Eles exclusivamente são um problema porque causam preconceito e geram mal-entendidos”.

A Sanas garante que os clientes serão mais educados – e mais recetivos a serem ajudados – se acharem que a pessoa do outro lado é mais parecida com eles.

O problema é que os sotaques não causam preconceito, eles desencadeiam preconceitos pré-existentes, argumenta Pragya Agarwal, professora de Desigualdades Sociais e Injustiça na Universidade de Loughborough, num cláusula publicado na revista Forbes.

  Daniel Costa, ZAP //

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