Houve uma antiga cultura nos Açores?

0
8003

Os livros de história dizem-nos que os navegadores portugueses encontraram as ilhas dos Açores desabitadas, no meio do Atlântico, no início do século XV. Mas a presença nestas ilhas de construções misteriosas sugere que muito antes disso os Açores tinham habitantes.

Literalmente no meio do Atlântico, as ilhas dos Açores guardam um mistério da ocupação pré-portuguesa.

Oficialmente, o Arquipélago do Açores foi revelado desabitado, no início dos anos 1400, por navegadores portugueses.

No entanto, a presença de construções muito anteriores à invenção pelos portugueses sugere que as ilhas teriam sido habitadas por uma cultura ascendente.

Mas qual era logo esta cultura, e por que motivo deixou os Açores?

A presença destas construções intriga os cientistas, porque “não deveriam lá estar”, diz ao BBC Reel o investigador português António Felix Rodrigues.

O investigador, licenciado em Física pela FCUL e doutorado pela U.Açores,  tem estado a averiguar e datar estas construções.

“As datações mais antigas que temos são de 4.200 anos“, explica Félix Rodrigues ao BBC Reel. O professor da U.A. sustenta que “houve uma cultura, que ainda não sabemos exatamente qual foi, que passou por cá”.

“Eu tenho muitas dúvidas. E uma vez que tenho muitas dúvidas, tenho muitas perguntas, e procuro respostas”, diz António Felix Rodrigues.

A procura de Felix Rodrigues por respostas a nascente mistério no meio do Atlântico começou há 10 anos, na Ilhota Terceira, onde vive. É nesta ilhota que se encontram as estruturas mais antigas que encontrou até agora.

Num dos sítios arqueológicos que investigou, Felix Rodrigues conseguiu encontrar sete estruturas megalíticas, “semelhantes às estruturas megalíticas da frontispício Atlântica europeia e isolar — porque em todo o Reino Uno encontramos estruturas desta natureza”.

Pela tipologia das estruturas, “recuamos milhares de anos”, explica o investigador, que acredita que se trata de dólmens usados por culturas pré-históricas para vigiar sobras mortais.

Estas cavidades circulares, que mostram trabalho propositado nas rochas, são indicadores da presença humana. Material aglomerado no interno das cavidades foi datado em pelo menos 2.500 anos.

Algumas peças de cerâmica encontradas no lugar são ainda mais antigas — mais de 4.000 anos.

“Temos um trabalho em pedras gigantes que não sabemos uma vez que é que se fazia”, diz Felix Rodrigues, mostrando uma pedra que foi levantada quando a sua posição proveniente, indicada pelos vestígios de lava que mantém, seria na nivelado.

António Felix Rodrigues / Facebook

O físico António Felix Rodrigues investiga há 10 anos as misteriosas construções neolíticas dos Açores

O facto de ter nesta ilhota construções megalíticas “implica que estamos a falar de viagens no Atlântico que ocorreram no segundo milénio antes de Cristo“, diz o físico, “o que é impressionante e altera o paradigma das viagens no Atlântico profundo em períodos muito remotos”.

Na orla costeira da ilhota há também vestígios intrigantes desta presença de uma antiga cultura nos Açores:  âncoras semelhantes às que se encontraram no Mediterrâneo e na Frente Atlântica da Europa. A sua tipologia “aponta para o primeiro e segundo milénio A.C.“, explica o investigador.

Estas âncoras de pedra têm em generalidade o seu orifício — todos têm 14 cm de diâmetro. Não há qualquer possibilidade de os portugueses terem utilizado esta tecnologia, “porque quando os portugueses começaram os Descobrimentos, eram os melhores marinheiros do mundo — e usavam âncoras de metal“.

Um prédio em privado não parece poder ter sido construído por portugueses do século XV. É uma estrutura escavada na rocha, no tufo vulcânico, feita pelo varão — não se trata de um maravilha proveniente.

BBC Reel

A estrutura escavada na rocha é comparável às que encontramos no Mediterrâneo com 2.000 anos

Quando foi feita, quem o fez? Até agora o que temos é a tipologia, que comparamos com as que existem no Mediterrâneo, com pelo menos 2.000 anos”, diz Rodrigues. “É a tipologia das estruturas fúnebres a que chamamos Columbários, que serviam para colocar a cinza dos mortos”.

Ao lado desta estrutura, encontra-se um forno onde ocorreu cremação de ossos, que, para o investigador, faz secção do mesmo multíplice ritualista.

Estruturas semelhantes são encontradas em outros sítios na Ilhota Terceira, no interno de rochas vulcânicas perfeitamente escavadas, interligadas por canais que escoam chuva para o mar. “Todo nascente espaço parece ser um espaço sagrado“, diz o professor da U.Açores.

Mas nem todos os cientistas estão convencidos de que estas construções sejam tão antigas quanto o sugerido pelas datações. Alguns sustentam que se pode tratar de estábulos de fortalezas do século XVI.

Nesse caso, “a pias serviriam para os animais beberem chuva, mas há um problema: é que nenhum bicho de quatro patas consegue tomar chuva inferior do nível das suas patas”, explica Felix Rodrigues.

Próximo destas construções, mais no interno da ilhota, há estranhos rastos — sulcos paralelos escavados nas rochas vulcânicas, com uma intervalo de 1,20m entre si, cobertos por uma erupção que ocorreu há mais de milénio anos.

Estes rastos,  a que os açorianos chamam “relheiras“, parecem ser caminhos ancestrais. Há pelo menos 500 metros de relheiras, que circulam entre si uma vez que se fossem linhas de caminhos de ferro.

“Há muito mistério à volta destes sulcos, não sabemos explicar, mas sabemos com o que é que se parecem: são equivalentes relheiras que e encontram em Súcia, que são milenares”, explica o investigador.

A origem destas construções permanece envolta em controvérsia e mistério. As relheiras de Súcia são investigadas há mais de 100 anos, e ainda não há respostas para a sua origem.

E, diz Felix Rodrigues, daqui a 200 anos, ainda não teremos respostas para o mistério das construções neolíticas dos Açores — e da misteriosa cultura que as criou.

  ZAP //

Deixe um comentário