“Os humoristas levam muitos estalos. Não é só na TV”

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Andy Witchger / Wikimedia

Chris Rock durante espectáculo

David Dennis Jr. sublinha que o caso entre Will Smith e Chris Rock foi mais mediático. Mas está longe de ser caso só.

O tópico continua a ser discutido diariamente nos Estados Unidos da América (e não só): Will Smith protagonizou o momento da noite, na protocolo dos Óscares deste ano, quando deu um estalo a Chris Rock.

Milhões de pessoas já sabem o contexto: o humorista estava quase a apresentar a lista de nomeados para o prémio de melhor documentário quando lançou uma piada sobre um problema de saúde de Jada Pinkett Smith. Will Smith ainda se riu mas, poucos segundos depois, levantou-se e deu um estalo em Chris Rock.

E aí arrancaram os milhões de análises e opiniões e perguntas. Foi real ou encenado? Foi uma questão de prova de poder? Foi uma questão machista de “eu defendo a minha mulher porque ela não se consegue tutelar sozinha”? Foi um atentado à liberdade no humor?

“Já há pensamentos suficientes sobre raça, poder e género para se dar aulas durante um semestre inteiro”, escreve David Dennis Jr. no portal Andscape.

No entanto, um facto deve ser sublinhado: “Às vezes os humoristas levam estalos”.

Porquê? Porque arriscam, porque mandam piadas perigosas. Aliás, se classificam um humorista de “perigoso”, esse é um dos melhores elogios que ele pode ouvir.

O humorista arrisca ser “travado” na sua curso quando brinca com um presidente, quando toca em temas sensíveis, quando goza com um tópico que devastou milhares de famílias (11 de Setembro, guerras…).

Pode mesmo passar risco de vida. Os estalos são pormenores, no meio deste contexto.

Chris Rock é “perigoso”. As suas piadas sobre racismo não caíam muito a algumas pessoa.

E exagera, de congraçamento com algumas análises. Exagera quando diz que tem terror de pessoas negras, quando humilha mulheres negras, quando gozou com a sua ex-esposa. Num documentário, dedicou uma hora e meia a envergonhar mulheres negras.

“Quando Rock insulta negros pobres e mulheres negras, ele está a insultar pessoas que muitas vezes não estão em posição de fazer zero do que ele está a expressar sobre elas. Muitas vezes essas pessoas nem conseguem estar na sala em que Rock está a lançar essas piadas”, continua o item, antes de se centrar no que aconteceu nos Óscares.

“No domingo à noite, ele olhou para um mar de rostos brancos, destacou uma mulher negra e gozou com o seu cabelo e com a sua deficiência. Simples, ele é somente um dos muitos comediantes ricos e famosos que recebem milhões de dólares enquanto criticam pessoas cujas vozes são abafadas. Há pouco transe nisso”, descreve.

Mas depois chegou ao palco Will Smith, provavelmente o único actor preto que tem o regimento de poder levantar-se durante os Óscares, dar um estalo numa pessoa e continuar na protocolo até ao final. Nem a sua esposa teria essa oportunidade, possivelmente.

Aí verificou-se um pouco vasqueiro: Chris Rock irritou uma pessoa na plateia (isso não é vasqueiro) mas essa pessoa tem um regimento social superior ao do humorista (isso tem sido vasqueiro).

Com ou sem regimento, outros humoristas defenderam publicamente Chris Rock. E Kathy Griffin deixou um alerta: a partir de agora, durante espectáculos de comédia, as pessoas na plateia podem ter o impulso de desabrochar no palco e repetir o gesto de Will Smith.

“Eu entendi isso. Mas é o seguinte: os humoristas são atacados frequentemente no palco e muitas vezes são mulheres negras e comediantes queer que sofrem esses ataques. E repetem-se, com ou sem estalos transmitidos pela televisão pátrio”, avisou David.

Há exemplo recente: na semana passada, o humorista preto Sampson McCormick foi agredido durante uma procedimento. Um soco de um varão que estava a testemunhar ao espectáculo. “Vou espancar no teu rabo preto”, afirmou o testemunha (branco).

O que acontece é que esses e essas humoristas “marginalizadas” correm mais transe quando sobem ao palco – mas são esses marginalizados que são muitas vezes o escopo das piadas dos humoristas que já são “estrelas”.

David Dennis Jr. avisa que a maioria das pessoas não tem noção de uma vez que são as actuações de humoristas negros ou queer em clubes pequenos, quase escondidos.

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São perigosas. Literalmente.

Para finalizar, David deixa uma sugestão a Chris Rock: deveria parar um pouco para pensar sobre porque está sempre a encontrar novas maneiras de insultar as mulheres negras.

“Mas tenho a sensação de que só ouviremos mais argumentos de espantalho sobre a segurança dos comediantes que atacam os vulneráveis que estão ​​entre nós, enquanto ignoram as pessoas realmente vulneráveis ​​​​que escrevem piadas sobre as suas experiências frequentemente ignoradas e desconsideradas”, lamenta.

  Nuno Teixeira da Silva, ZAP //

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