porque há venustidade na melancolia e intimidade na partilha

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(dr) Teresa Pamplona

Quarta-feira à noite, Teatro Sá da Bandeira, uma noite amena e propícia a encontros e confissões: com os ingredientes da Primeira Secção De Um Assalto reunidos, Valter Lobo presenteou a Invicta com a margem sonora perfeita para uma convenção de romântico-melancólicos. O ZAP conversou com o cantautor português, que revelou alguns detalhes sobre o seu mais recente trabalho.

O encontro estava marcado para as 21h30, mas qualquer romântico-melancólico que se preze sabe que os inícios nunca são marcados pelos ponteiros do relógio.

Valter Lobo e todos os que decidiram passar o serão de quarta-feira no Teatro Sá da Bandeira chegaram mais cedo. A convenção começa antes de as luzes iluminarem o palco e termina sempre muito depois de se apagarem.

De t-shirt preta e calças beges, muito poucos diriam que Valter estava pronto para a Primeira Secção De Um Assalto, mas o músico provou que é com uma indumentária vulgar que se roubam as mais bonitas sensações, os mais rasgados sorrisos e até os mais apertados abraços. Sem falar dos aplausos, que, ruidosos, denunciaram a magia que se fez sentir no palco portuense.

“Boa noite a todos”, disse e suspirou de seguida. “Obrigado por terem vindo”.

Seguiu-se, portanto, a apresentação do seu mais recente trabalho, um novo disco de originais que viu a luz do dia em março.

Primeira Secção De Um Assalto foi produzido e gravado num moinho de vento centenário, em Torres Vedras, e conta com nove músicas que nos fazem viajar até ao mais íntimo profundo de Valter Lobo. Jorge Moura assume as guitarras, num trabalho que conta também com uma participação próprio: o piano de Benjamim.

Na quarta-feira, foram poucos os holofotes a iluminar o Teatro Sá da Bandeira, porque não são precisas grandes artimanhas para clarear o que já é luz. Se o novo álbum do artista português fosse um objeto, seria certamente a lanterna que nos guia nas noites mais solitárias e melancólicas.

Que o diga o público. De cabeça ligeiramente inclinada para o lado, porquê que a ouvir com ternura as confissões de um “Lobo Solitário”, foram vários os que, serenos, prestavam atenção a cada verso. O pavimento tremia levemente, um mini-sismo provocado pelos pés que iam acompanhando o ritmo da música. Uns de mão no queixo, atentos; outros de braços postos sobre os ombros das companhias.

Valter Lobo é para os apaixonados e para os que conversam no silêncio.

“Isto parece uma relação familiar. Estou em lar às três da manhã, hora produtiva, e vocês estão a ver. Estou a chorar e vocês estão a ver”, partilhou Valter antes de ser interrompido – e imprudente – com um “és lindo” quase inopino. “Obrigado. Assim estou a gostar”, respondeu.

O concerto da passada quarta-feira não se cingiu a música. Falou-se de paixão, da vida, de intimidade e até de restauro de móveis. “Isto não é um concerto, é um encontro de pessoas tristes e melancólicas que vêm para cá confessar-se. Vocês importam-se?”, questionou o artista.

“Não”, responderam os presentes em uníssono, agradecidos pela magia que não se faz só de acordes.

Estou a cantar-vos a minha vida em canções“, confessou, ainda em cima do palco. Fora dele, o ZAP tentou perceber porquê se fazem assaltos e chegou à desenlace que, cá, só se roubam sensações.

Valter Lobo / Álvaro Ramos / Instagram

ZAP: Nem todas as histórias muito contadas começam pelo início e, neste caso, vamos iniciar precisamente pelo pretérito mais recente. Lançaste o teu novo álbum, Primeira Secção De Um Assalto, no final de março. Em seguida um período que penalizou tanto a Cultura e depois de teres tornado público que acabaste por mudar algumas das canções que compunham leste teu trabalho, porquê é estar de volta aos palcos? Principalmente agora, que a máscara já não cobre os sorrisos do público.

Valter Lobo: Felizmente, mesmo durante a pandemia, fui tocando e fiz muitas coisas. É dissemelhante tocar para pessoas sem máscara. Ainda sinto que existe ali qualquer receio, por secção do público mas também da nossa secção, porque corremos sempre o risco de o concerto não se realizar. É um novo recomeço e é sempre bom, porque a música e a arte são o contacto entre as pessoas. Voltamos ao habitat normal do ser humano, a conviver uns com os outros. Se a música e a arte nos ajudarem a fazer uma margem sonora para essa situação é ótimo. Na quarta-feira, tive o primeiro concerto sem máscara desde há muito tempo e fiquei contente, porquê fiquei muito contente de poder estar com as pessoas no final. Tudo isto faz secção do meu propósito: estar com as pessoas. Não faço música só para mim, quero partilhá-la.

ZAP: No seguimento dos constrangimentos de que a Cultura tem sido vítima, sabemos que há pelo menos 20 anos que os trabalhadores e estruturas têm apelado à geração de um regime dos profissionais da cultura, um enquadramento permitido específico que foi autenticado em Juízo de Ministros em outubro. Qual é, para ti, a preço de ter um regime assim?

Valter Lobo: É importante leste primeiro passo. Não vejo isto porquê um ponto encerrado, mas é um primeiro passo importante a vários níveis. Desde logo porque protege uma classe que não tem qualquer tipo de proteção nem regalia e que, supra de tudo, merece. O artista compromete a sua vida e a sua arte em função de uma questão financeira. Se formos independentes financeiramente, a arte acaba por ser mais pura, genuína e verdadeira. Tem outro alcance. A arte é erigir e gerar, mas não com o propósito de vender. A arte não é para ser vendida: vende-se, mas não é o propósito final.

ZAP: É curioso porque te formaste em Recta, mas a tua vida acabou por se direcionar para a música – até no contextura do Recta, uma vez que fazes aconselhamento jurídico na Gestão dos Direitos dos Artistas. Por ser o que mais te realiza, é a arte que te permite ser e sentir? O que é que a música te dá que faz com que o Recta fique aquém?

Valter Lobo: O Recta é uma formação profissional, não posso manifestar que ser jurista ou juiz fosse um sonho de moçoilo. Podia ter ido para Recta porquê poderia ter ido para Notícia, Literatura, Filosofia, Sociologia ou outra coisa qualquer. É a minha bagagem universitária, mas nós cumprimos sempre mediante aquilo que sentimos. Desde novo que vivo, na minha cabeça, ligado à música e agora sou praticante, embora não tenha qualquer formação músico. O meu propósito era redigir canções, uma margem sonora para os meus dias que fosse minha. A música está em mim porque estou sempre a pensar nisto. Não penso em regras jurídicas, quero é erigir paisagens e bandas sonoras bonitas para tentar embelezar os dias.

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ZAP: Autodenominas-te porquê “Lobo Solitário”. É com um lobo à guitarra que nascem as tuas músicas? Fala-nos um bocadinho do teu processo criativo.

Valter Lobo: Primeiro, tenho “Lobo” no nome, o resto explica-se pelo meu trajectória. Não tenho qualquer tipo de veras músico à minha volta que não seja a do mero ouvinte. Na minha família, ninguém é músico. Vincular-me à música foi um processo que fiz sempre sozinho e com os meus meios. Até agora, porque ainda hoje edito os meus discos sozinho. Eu escrevo as minhas canções, eu edito os meus discos, eu decido as capas, sou eu que os pago e vou buscá-los à fábrica. O processo solitário é exatamente isso: tudo depende de mim. Mesmo em palco, acaba por ser uma coisa muito pessoal. Os meus concertos sou eu e a minha guitarra a tocar as minhas canções. Quanto à geração, sou eu que crio a génese das canções (na guitarra e até no piano, mesmo não sabendo tocar) e as letras vêm da minha cabeça. É a estudo do que penso, do que gostava de viver, do que sonho. É um processo muito íntimo o de um “Lobo Solitário”.

(dr) ZAP

ZAP: Sei que és fã de Oasis e que foste influenciado pelo pop-rock britânico dos anos 90 a iniciar a tocar guitarra. Quem são as tuas maiores influências musicais?

Valter Lobo: Cruzei-me durante a puberdade com Oasis e ainda hoje sabor deles. Eu era fanático, mas agora é difícil ser-se fã só de uma pessoa. Paladar de bandas um bocadinho mais maduras. Sou muito fã do Glen Hansard, do Damien Rice, dos Editors, que é uma cena completamente dissemelhante. Paladar muito dos Radiohead, desde sempre também. Do Ryan Adams, que é um tipo que faz quase tudo sozinho. Levante ano já editou quatro discos e só vamos em maio. Eu passo-me com isso, adoro essa filosofia completamente fora da indústria, sem placards na estrada ou anúncios na televisão. As pessoas gostam genuinamente do artista pelo que ele faz. Quando vejo artistas assim, sou mesmo fã e penso: “Levante gajo é o maior!”.

ZAP: Começaste leste trajeto músico com um EP, Inverno, e, tapume de 6 anos depois de teres lançado o Mediterrâneo, presenteias-nos com um novo álbum, gravado num moinho de vento centenário (Vivenda do Vento, Torres Vedras). Que assalto é leste?

Valter Lobo: É um assalto emocional. Fala de uma série de sensações, dos temas basilares de qualquer songwriter – sobre esperança, paixão, paixão, erotismo, sobre uma legado que queres deixar, sobre qualquer desencanto. Fui abordando uma série de sentimentos distintos, sempre com um ar melancólico. É um disco pessoal e íntimo. O álbum demorou muito, tenho dezenas de canções que foram escritas nesse pausa. Só que até gostar da música, até encontrar que faz sentido… Não penso se vai ter sucesso, penso se sabor mesmo dela. Quando chego a uma desenlace, lanço, mesmo que não seja o maior hit do mundo.

ZAP: A primeira secção terá uma segunda?

Valter Lobo: Não sei, mas é giro não é? As pessoas pensam: “o que vai transpor daqui?” – e o pior é que nem eu sei.

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ZAP: Se calhar, a venustidade é mesmo essa. A incerteza.

Valter Lobo: Exatamente. E eu, que sou um tipo que deixa as coisas pelo caminho, pergunto-me muitas vezes: há maior prazer do que o início de alguma coisa? O início de um projeto é o maior prazer. Eu sabor sempre de novos inícios e esta primeira secção pode ser isso mesmo. Agora tenho de fazer o início de outra secção qualquer.

ZAP: Em que aspetos é que o Mediterrâneo e a Primeira Secção De Um Assalto são parecidos e diferentes? Há um fio condutor ou uma narrativa que os interliga?

Valter Lobo: É o mesmo registo porque foi o mesmo tipo que escreveu as canções e as cantou. O Mediterrâneo é uma espécie de margem sonora para um sonho. Alguém que se muda para perto do mar e que vive despido de bens materiais e só se quer gostar. Quer aproveitar o momento e viver um romance; toda a gente sonha com isso mas pouca gente o faz. Quem me Dera, Para Sentir Mais Dou De Mim Mais e Mediterrâneo são músicas que vão buscar uma ilusão. Ao mesmo tempo, há que viver as emoções intensamente, daí ter a Guarda-me Esta Noite e a Fora Do Coração.

O novo álbum é dissemelhante no sentido em que é uma estudo maior da veras. O Que O Sol Guardou é segurarmo-nos ao que temos e continuar; Para T. diz que temos que assumir se não estivermos muito, mas “será o que tu quiseres”; Fizeste-me Sonhar vai buscar a ilusãoM o Desencanto às vezes pinta a paisagem quando abrimos a janela e pensamos: “É isto a nossa vida? Que seca” [risos].

ZAP: Manténs uma identidade muito própria desde o início da tua curso, marcada pela intimidade, pela melancolia e sempre em português. Enquanto artista, que papel assume a língua portuguesa para ti?

Valter Lobo: Eu tenho que me tutorar na única língua que acho que domino. Expresso-me melhor em português. Não penso se é tendência; o português é a única língua em que consigo redigir com uma grande percentagem de certeza. E, mesmo assim, às vezes penso se sou muito entendido. Sou eu a falar na minha língua, com o meu sotaque nortenho. Acho importante cultivarmos a nossa língua e levarmos canções portuguesas a outros sítios, mas é o vínculo mais rápido com o meu público. Mais do que isso: é meu, sincero e sem artifícios.

ZAP: És cantautor e és também o varão responsável por pôr a máquina a carburar. O teu trabalho artístico é todo feito por ti, incluindo a notícia e a promoção. Esta sensação do dedo que colocas em tudo o que fazes é importante para ti? 

Valter Lobo: É o que me identifica no meu trabalho, uma espécie de marca própria. Há artistas que se inserem em núcleos, eu vivo um mica sozinho. Sou as minhas canções. Atiro-as à chuva, deixo-as ir no rio e vão a fluir até ao mar. E quem as colher, apanhou.

ZAP: Dizes que cantas a tua vida em canções e no final de cada concerto incentivas o público a enviar-te mensagens. Esse calor e interação com as pessoas que te ouvem são os propósitos do teu trabalho?

Valter Lobo: Se pensarmos na música ou na geração enquanto mera satisfação pessoal, é importante eu terminar o trabalho e permanecer satisfeito. Mas se eu não partilhar com o público, é só uma mera… Não sei se posso manifestar isto cá.

ZAP: Força.

Valter Lobo: Uma mera onanismo [risos]. E isso não é suficiente, preciso da partilha, de saber se as pessoas gostaram. Se as fez pensar de alguma forma. Se uma pessoa pensar que eu estou completamente inexacto, eu já fico satisfeito porque mexi com essa pessoa. Na quarta-feira, no final do concerto, disseram-me que aquilo tinha sido uma espécie de conversa, um momento de encontro. Já mexeu, já cumpri.

ZAP: Vou ter que sobresair uma das músicas do teu novo álbum. Para T., conta com a participação do piano do Benjamim. É importante para ti trabalhares com amigos e, sobretudo, com artistas portugueses?

Valter Lobo: Nunca pensei muito nisso, foi uma coisa proveniente. O Benjamim foi lá almoçar connosco, queríamos gravar a Para T. no piano e de repente dissemos “está cá o pianista”. Ele é altamente disponível, um supimpa artista e pessoa, e disse logo que sim. A versão final do piano foi gravada na lar dele e eu gravei a voz em cima.

ZAP: Atualmente, no quadro vernáculo, quem é que faz mais pela música portuguesa?

Valter Lobo: Honestamente, toda a gente que faz música em Portugal já faz muito pela música portuguesa. É um sistema tão complicado e multíplice que admiramos quando alguém nos diz que é músico. É muito difícil, mesmo para quem está lá em cima. Quem está e permanece passa por uma luta manente, mas ao mesmo tempo é uma missão.

ZAP: Se te desafiar a destacares uma música do teu novo álbum para ser a margem sonora de um primeiro encontro, qual escolhes?

Valter Lobo: Fizeste-me sonhar, porque é invenção, qualquer flirt. Uma cena mais corporal e física do que propriamente mental. No início, é sempre mais atração física, depois é que passa para o campo mental. Normalmente, as relações são assim.

ZAP: E para um jantar intimista entre amigos?

Valter Lobo: Uma Melodia.

ZAP: Uma música para viajarmos no pausa de um dia de trabalho?

Valter Lobo: Essa é difícil, mas O Que o Sol Guardou. Para manter a esperança [risos].

ZAP: E qual é a tua música favorita da Primeira Secção De Um Assalto?

Valter Lobo: Privilégio. Acaba por ser uma música melancólica e nostálgica. Leva-nos a pensar sobre o que estamos cá a fazer. Qual é realmente o nosso privilégio, numa profundidade em que falamos tanto de privilégios, direitos, deveres… O nosso maior privilégio é estar. Só estar é ter uma sorte.

ZAP: Tens uma música muito próprio neste teu Assalto. Brilha na Vida, uma homenagem músico ao teu rebento e, porquê gostas de lhe invocar, “uma legado que lhe possa servir de guia sentimental”. Serve para todos nós também, agora que a tua voz nos abraça com leste teu novo álbum. Para terminar, desafio-te a deixares-nos também uma legado – ou, se quiseres, uma mensagem.

Valter Lobo: Não quero usar clichês, mas só vivemos uma vez. Vão para a leito descansados, cumpram o vosso propósito e não o dos outros. É tão simples quanto isto.

  Liliana Malainho, ZAP //

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