Servo ensinou taxidermia a Darwin e abriu caminho para teoria da evolução

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Viktor Yevstafiev / State Darwin Museum

“Na oficina de um taxidermista” (John Edmonstone e Charles Darwin).

Historiadores acreditam que um servo que ensinou taxidermia a Charles Darwin pode ter reacendido a sua paixão por história procedente.

Em “A Origem do Varão” (1871), o segundo livro sobre a teoria da evolução de Charles Darwin, que é um dos textos mais estudados da História, cada pormenor foi investigado. E há um que, apesar de não ser relevante para a compreensão da sua teoria revolucionária, intrigou os historiadores.

Posteriormente declarar que, embora as raças humanas difiram em alguns aspetos, porquê um todo “elas assemelham-se em tá proporção” fisicamente e “de maneira igual e ainda mais marcada” mentalmente, Darwin observa:

“[…] Durante minha estadia entre os nativos da Terreno do Queimação, a bordo do Beagle, fiquei profundamente impressionado com a reparo de um grande número de traços característicos que evidenciavam porquê a sua lucidez era semelhante à nossa; o mesmo aconteceu com um preto de sangue puro de quem eu já fui próximo”.

Quem era aquele varão não identificado?

Uma pista estava nas notas autobiográficas do término da vida de Darwin, na troço que descreve os seus dias de estudante em Edimburgo (outubro de 1825 a abril de 1827), onde escreveu:

“Aliás, morava em Edimburgo um preto que tinha viajado com Waterton e ganhava a vida a dissecar pássaros, o que fazia com vantagem: ele dava-me aulas em troca de um pagamento, e eu costumava sentar-me com ele muitas vezes, porque era um varão muito porreiro e inteligente”.

Era alguém que Darwin não tinha esquecido apesar da sua idade avançada, embora novamente não tenha citado o seu nome… mas citou outro, Waterton, e esse era divulgado.

O excêntrico naturalista, conservacionista e explorador Charles Waterton ficou famoso pelas suas expedições ao continente americano, de onde levou para a Europa o curare, o extrato vegetal paralisante que mais tarde foi usado porquê anestésico em operações cirúrgicas. Waterton registou as suas experiências num livro publicado em 1825.

A obra apresentou muitos britânicos, incluindo o próprio Darwin e o seu colega pioneiro da teoria da evolução Alfred Russel Wallace, às maravilhas naturais dos trópicos.

E foi numa dessas viagens, durante uma visitante à plantação do seu camarada e mais tarde sogro Charles Edmonstone por volta de 1812, que Waterton começou a estudar e recolher espécimes da selva circundante.

Mas havia tantos exemplos de pássaros exóticos que ele queria preservar que não deu conta. Assim, porquê conta no seu terceiro quotidiano, iniciado em 1820, procurou ajuda.

“Foi nesta colina, dias antes, que tentei ensinar John, o preto escravizado do meu camarada Sr. Edmonstone, a maneira correta de fazer pássaros.”

“Mas John tinha poucas habilidades, e levou muito tempo e paciência para incutir um tanto nele.”

“Alguns anos depois, o seu senhor levou-o para a Escócia, onde, sendo libertado, John deixou-o e conseguiu um serviço no museu de Glasgow e depois no de Edimburgo.”

Seria ele aquele varão não identificado? Numerosos historiadores concluíram que sim.

O nome do varão

Dos primeiros e últimos anos de sua vida, pouco se sabe. Tinha nascido escravizado na plantação de madeira do escocês Edmonstone na região de Demerara, no território que era portanto divulgado porquê Guiana Britânica, no setentrião da América do Sul.

Uma vez que era geral, John recebeu o sobrenome do seu proprietário e, em 1817, viajou para a Escócia com ele, onde, por lei, foi emancipado.

Embora Waterton observe que Edmonstone trabalhou em museus em Glasgow e Edimburgo, investigadores dos Registos Nacionais da Escócia, consultando arquivos de correios, encontraram um John Edmonstone, “empalhador de pássaros”, que em 1823 abriu uma loja no número 37 da Lothian Street, perto da Universidade de Edimburgo.

De qualquer forma, tudo indica que vivia da arte da taxidermia que Waterton lhe tinha ensinado — uma habilidade requisitada na estação, não só para fins científicos, mas também para decoração.

E era essa arte que o jovem Darwin queria aprender — aos 16 anos, chegou até Edmonstone e solicitou os seus conhecimentos em troca de “um guinéu (moeda de ouro) por uma hora todos os dias durante dois meses”, porquê contou numa epístola à mana Susan.

Pássaros empalhados

Para Adrian Desmond e James Moore, especialistas na obra de Darwin e autores de “A Motivo Sagrada de Darwin”, Edmonstone deu mais do que palestras técnicas sobre porquê um caçador refinado porquê ele poderia poupar os seus pássaros porquê troféus.

Nas suas conversas, provavelmente contou-lhe sobre as emocionantes aventuras de Waterton, sobre interessantes buscas por espécimes raros e sobre aquele mundo exótico que só descobriria se atravessasse o Atlântico.

Falou também sobre a terrível cultura esclavagista de Demarara, tema de privado interesse para alguém que, porquê Darwin, vinha de uma família libertador, acreditava que todas as raças pertenciam à mesma família humana e condenava a escravidão porquê vício.

Na estação, Darwin estava a permanecer desiludido com os seus estudos de medicina, enquanto a sua paixão pela história procedente crescia.

E acredita-se que os relatos de Edmonstone sobre a vida nas florestas tropicais da América do Sul ajudaram a solidificar o seu interesse pelo naturalismo. Isso é provável, embora impossível de fundamentar.

O facto é que o que ele aprendeu sobre taxidermia foi precípuo para preservar os espécimes que Darwin recolheu na sua viagem de cinco anos a bordo do Beagle.

E esses espécimes perfeitamente preservados foram fundamentais para formular a teoria que mudou a nossa visão do mundo e o nosso lugar nele porquê nenhuma outra.

Sobre Edmonstone, depois de 1843 não há vestígios. Mas, embora não possamos relatar a história completa da sua vida, os vislumbres recuperados pelos historiadores pelo menos resgataram-no do esquecimento.

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