Só os homens têm pelos faciais. Os cientistas tentam perceber porquê

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wang-lu / Flickr

Os chamados andrógenos são o grupo de hormonas responsáveis pelo desenvolvimento das características masculinas — e a principal razão pela qual os homens têm pelos faciais e as mulheres não.

Os folículos pilosos não são assim tão simples. Em algumas pessoas, os andrógenos estimulam o crescimento do pelo. Noutros casos, reduzem-no — como na calvície masculina.

Há também situações onde o pelo cresce nos ouvidos.

Os andrógenos fazem crescer o cabelo, e com o tempo, desencadeia o crescimento de pelos faciais — a barba.

“A realidade é que neste momento ainda é bastante desafiante para os investigadores perceber a diferença”, explica Ben Miranda, cirurgião plástico do Centro de Cirurgia Plástica e Queimaduras de St. Andrew, “mas há diferenças nos próprios folículos capilares que são retidos dependendo da parte do corpo de onde provêm”.

De acordo com a Live Science, antes da puberdade, os folículos capilares do corpo produzem pelos velinos, o cabelo curto, leve e fino que se pode ver na parte de trás da mão de uma mulher.

Na puberdade, tanto os homens como as mulheres produzem mais andrógenos, nomeadamente testosterona e dihidrotestosterona. No entanto, o corpo masculino produz muito mais andrógenos.

Estes andrógenos estimulam os folículos capilares a produzir cabelo mais escuro e espesso, conhecido como cabelo intermédio, e a “penugem de pêssego” geralmente visto pela primeira vez no lábio superior.

Com o tempo, a simulação dos andrógenos incentiva a produção de “cabelos terminais” ainda mais escuros e espessos, do mesmo tipo visto no couro cabeludo.

Os andrógenos fazem-no aumentando o tempo que um determinado folículo capilar passa na sua fase de crescimento em relação às suas fases de queda ou repouso, explica Miranda.

O cabelo no corpo feminino também muda durante a puberdade, mas não tão dramaticamente como nos homens. Os folículos pilosos no rosto de uma mulher perto da orelha passam de velinos para madeixas intermédias, e as axilas e pelos púbicos passam a pelos terminais.

A terapia hormonal masculina — por vezes utilizada por indivíduos transgéneros — tem um efeito semelhante nos pelos do corpo. Poucos anos após o início de uma terapia de testosterona, os pelos do corpo e do rosto escurecem e engrossam, segundo a Universidade da Califórnia, São Francisco.

No entanto, a história não é tão simples como “basta adicionar andrógenos”. Em alguns folículos do couro cabeludo, os andrógenos encorajam exatamente o padrão oposto ao dos pelos do corpo.

Em vez de desencadear uma transição de cabelo velinos, para cabelo intermédio e cabelo terminal, os andrógenos desencadeiam o oposto, o cabelo terminal para se tornar cabelo intermédio, e depois causam uma transição de cabelo intermédio para cabelo velinos.

É chamada alopecia androgénica, mais conhecida como calvície masculina.

Nem todos os homens são geneticamente suscetíveis, mas naqueles que o são, o resultado é um decréscimo na parte da frente do couro cabeludo que gradualmente aumenta com a idade.

“O realmente estranho é que um folículo capilar no couro cabeludo que se encontra numa zona é sensível ao andrógeno, e o que está ao lado não é. Simplesmente não faz sentido”, disse Miranda.

As diferenças são específicas do local no corpo onde o folículo capilar se desenvolve. Se se transplantar um folículo não sensível ao androgénio para uma zona calva no couro cabeludo, o cabelo irá crescer alegremente — é por isso que a cirurgia de transplante de cabelo funciona.

Mas as razões por trás destas diferenças são difíceis de compreender, diz Miranda. Os genes em cada folículo são os mesmos, mas o controlo da atividade genética — a  chamada epigenética — é claramente diferente.

Existem diferenças complexas na sinalização celular, ou na cascata de instruções moleculares que fazem crescer, descansar ou derramar um folículo. Alguns genes tornam-se mais ou menos ativos durante a calvície, mas a investigação nem sempre encontrou consistência nesses padrões genéticos.

“São diferenças epigenéticas, regulação e desregulação das vias de sinalização, exposição exógena a ambientes diferentes, hormonas circulantes dentro do corpo durante esses tempos”, explica Miranda.

O cirurgião e a sua equipa estão a trabalhar no desenvolvimento de folículos capilares intermédios sensíveis às hormonas que podem ser mantidos vivos no laboratório, a fim de sondar estes fatores.

Esta investigação poderia ser utilizada para ajudar a prevenir não só o padrão comum da calvície masculina, mas também para tratar algumas formas de alopecia, ou a perda tanto do couro cabeludo como do cabelo corporal, e o hirsutismo, uma condição em que nas mulheres crescem pelos faciais e corporais invulgarmente espessos.

Os folículos pilosos também têm a sua sensibilidade androgénica em comum com as células da próstata, observou Miranda. Sob a influência de andrógenos, a próstata pode aumentar ou tornar-se cancerosa, uma condição extremamente comum para os homens mais velhos.

Estudar como os andrógenos afetam os processos celulares nos folículos capilares poderia ajudar a revelar como as mesmas hormonas causam problemas de próstata na velhice.

  Inês Costa Macedo, ZAP //

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