Técnica inovadora permite transplantes renais em crianças sem imunossupressores

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Cientistas norte-americanos anunciaram ter realizado três transplantes de órgãos renais bem sucedidos sem recorrer a medicamentos imunossupressores — com um novo método que diminui o risco de o novo rim ser rejeitado.

Os pacientes estão a fazer tudo: “vão à escola, vão de férias, praticam desporto. Estão a ter vidas completamente normais”.

Os transplantes de órgão podem literalmente salvar vidas, mas também implicam algumas consequências.

Muitas vezes o transplante implica uma vida inteira de tratamentos com medicamentos imunossupressores — medicamentos esses necessários para manter o sistema imunitário sob controlo, e que este não rejeite o órgão transplantado como um invasor.

De acordo com Science Alert, uma equipa de cientistas norte-americanos anunciou agora ter realizado três transplantes de órgãos renais bem sucedidos, em crianças na Califórnia, sem a necessidade de supressão imunológica. Os transplantes utilizaram um novo método que minimiza o risco de o novo rim ser rejeitado.

A nova técnica foi apresentada num artigo publicado no New England Journal of Medicine, em junho deste ano.

A nova técnica permite libertar o paciente de imunossupressores e dos efeitos secundários associados — que nem sempre são agradáveis e incluem um risco acrescido de cancros e diabetes, além de reduzir a probabilidade de ser necessário um segundo transplante devido à rejeição do primeiro.

“É possível libertar com segurança os pacientes da imunossupressão vitalícia após um transplante renal”, diz Alice Bertaina, professora associada de pediatria na Universidade de Stanford na Califórnia.

A técnica funciona transplantando com segurança o sistema imunitário do doador para o paciente — através de células estaminais da medula óssea — antes de transplantar o próprio rim

Esta metodologia, designada “transplante duplo de órgão imune/sólido”, ou DISOT, já tinha sido experimentada antes, mas com um sucesso limitado.

Mas neste caso a equipa de cientistas adicionou um processo extra: removeram os tipos de células imunitárias (alfa-beta T e CD19 B) que causam a doença exerto-versus-hospedeiro, ou GVHD — uma complicação potencialmente letal ocorreu ocasionalmente quando técnicas semelhantes foram usadas no passado.

Com uma ameaça reduzida de GVHD, o processo era muito mais seguro. A remoção das células T alfa-beta é relativamente “suave”, tornando-a adequada para crianças medicamente vulneráveis, e permite transplantes geneticamente combinados (de um dos pais).

Segundo a equipa de investigadores do Massachusetts General Hospital, as células removidas recuperam naturalmente no paciente em 60-90 dias, construindo novamente o sistema imunitário.

Foram feitos outros ajustes, incluindo uma redução da toxicidade da quimioterapia e do tratamento com radiação necessários antes do transplante.

Ainda assim, é necessário algum trabalho de preparação bastante desgastante para ultrapassar o sistema imunitário do paciente e preparar o corpo para receber um novo órgão.

As três crianças que recebem os transplantes renais desta forma têm uma doença genética extremamente rara chamada displasia imuno-óssea Schimke (SIOD), que restringe a capacidade do corpo de combater a infeção e pode levar à falência renal.

“Esta notável experiência sublinha o potencial do transplante combinado ou sequencial de células estaminais hematopoiéticas e do transplante renal para corrigir doenças de hematopoiese e imunodeficiência e para induzir tolerância ao aloenxerto renal”, escrevem os autores do estudo, Thomas Spitzer e David Sachs.

“O SIOD é uma doença rara que envolve imunodeficiência, o que sem dúvida contribuiu para a obtenção de uma gravação bem sucedida do HSCT doador”.

Embora o SIOD e todas as suas complicações continuem a ser algo com que as crianças têm de lidar, todos os rins transplantados estão a trabalhar como deveriam. Os transplantes têm sido bem sucedidos há pelo menos 22 e 34 meses, relatam os investigadores.

“Estes foram pacientes únicos em que tivemos de fazer o transplante de células estaminais e um transplante renal”, diz Bertaina.

“Eles estão a fazer tudo: vão à escola, vão de férias, praticam desporto. Estão a ter vidas completamente normais“.

De particular interesse para a equipa de investigação são os pacientes que já tiveram um transplante renal rejeitado pelos seus corpos.

Isto acontece em até metade de todos os casos em crianças, levando a sistemas imunitários hiper sensibilizados que muito provavelmente não aceitariam um segundo rim através de um procedimento de transplante normal.

Eventualmente, a técnica poderia até ser adaptada para cobrir transplantes de órgãos que não rins. “Isso é um desafio, mas não é impossível”, diz Bertaina.

  Inês Costa Macedo, ZAP Notícias //

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