Vandalismo em pintura de Verissimo no centro de Porto Alegre

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Os ataques de vândalos ao retrato do escritor Luís Fernando Verissimo, exposto na escadaria Verão do Viaduto da Borges de Medeiros, em Porto Alegre, com a coleção Autorias, terá uma resposta à altura, segundo a pintora e curadora do evento, Graça Craidi.

“Não utilizaremos os métodos violentos dos agressores, mas faremos uma homenagem a Luis Fernando Veríssimo que deverá apagar da memória o ódio revelado por esses bolsonaristas que identificaram no cronista um elemento da esquerda“, afirmou ela, acrescentando que convocou todos os artistas plásticos e a população em geral para, no sábado (30), desenharem a figura do escritor.

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Graça atribui a violência ocorrida na semana passada a um “ataque de bolsonaristas“. Eles identificam o petismo histórico na figura do Luis Fernando, disse ela. E lembrou de uma frase do próprio escritor: “Me atribuem muitos textos que não escrevi, se meu nome tiver escrito com “Z”, não sou eu. Mas se falar mal do Bolsonaro, sou eu”.

Segundo Graça, Verissimo sempre se posicionou, sempre defendeu posições de esquerda. Como os bolsonaristas “têm pavor da esquerda e do PT”, ela acredita “que eles transferiram para o retrato do Verissimo toda esta raiva, este ressentimento que sentem contra o PT. Para eles, a esquerda é o demônio, é o comunismo. Já para nós, Bolsonaro é mais velho do que o próprio demônio”.

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O artista que pintou o retrato de Veríssimo, Gustavo Burkhart, registrou um Boletim de Ocorrência sobre a agressão sofrida no dia 23.

“A minha obra que é a pintura do Retrato do autor e escritor Luis Fernando Verissimo foi vandalizada. A primeira vez foi no dia 17 de outubro na madrugada, a obra foi rasgada com um objeto cortante: faca ou estilete, tiramos a obra do local para ser restaurada e colocamos uma foto impressa da obra no local. Hoje, dia 23, recebemos várias mensagens anônimas de que ela foi vandalizada novamente, desta vez jogaram cola durepox e tinta vinílica, o que inviabiliza o conserto desta segunda obra”, relata o B.O.


Obra original já havia sido danificada / Foto: Divulgação Curadoria

Desagravo

“Da primeira vez eles cortaram com estilete. Tiramos a obra original, levamos para restaurar e colocamos no lugar uma impressão sobre uma tela da obra original. Na segunda vez, o vândalo achou que estava estragando uma obra original, mas estava depredando uma réplica. Mas isso não importa, o vandalismo é simbólico”, conta a curadora da exposição.

Em desagravo a este ato, ela planejou uma ação ligada à arte, fez uma convocação para todos os que queiram desenhar o Luis Fernando Verissimo no próximo sábado.

“Nós vamos reafirmar nosso afeto, nosso respeito, nossa admiração pelo Luis Fernando Verissimo e, ao mesmo tempo, vamos responder à altura o que fere a nossa arte, a nossa arte é resistência e a gente fere de volta com a própria arte. Como quem diz: vocês não vão vencer, não passarão!”.

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De acordo com ela, será um evento de congraçamento dos que acreditam no poder da arte, da liberdade, da literatura “e dos que de fato não estão de acordo com o que esta acontecendo nesse país”.

Para Graça, a exposição “é uma forma de romper este clima de baixo astral”. Ela entende a literatura como a forma e deixar para os que virão a narrativa de uma época, como elas pensam, o que elas sentem, como se relacionam, no que elas acreditam. “A literatura é isso: eu conto aquilo que é da minha gente, eu conto aquilo que é da minha terra.”

De Erico a Caio, passando por Lya 

A exposição de pinturas em telas foi feita por um grupo de 18 artistas visuais, entre os quais alguns dos mais reconhecidos do estado. Eles apresentam retratos de 26 escritores marcantes da literatura gaúcha.

A mostra Autorias, de 1º a 31 de outubro, seduziu a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre que, na 67ª edição, a iniciar neste 29 de outubro, a incorpora como evento prévio de sua programação. Até então, de março passado para cá, haviam sido realizadas na Escadaria exposições mensais de fotografias, as quais foram impressas e adesivadas em placas de PVA. 



A 67ª Feira do Livro de Porto Alegre apoiou a exposição e a inseriu em seu calendário de eventos / Foto: Divulgação Feira do Livro de Porto Alegre

Muita gente tem ido à galeria a céu aberto para matar a saudade de escritores já falecidos, como Érico Verissimo, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll e Josué Guimarães, e também de contemporâneos, ora reclusos, como Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Carol Bensimon e Eliane Brum – Carol vive nos Estados Unidos e Eliane na Amazônia -, entre outros.

Um detalhe de extrema delicadeza: as obras são fixadas na Escadaria numa altura adequada à visualização das crianças. 

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A artista Graça Craidy justifica a homenagem aos escritores no texto de apresentação da exposição:

“O que seria de um povo se, entre sua gente, não surgissem prosadores dos seus enredos, mapeadores dos seus anseios, tradutores dos seus delírios, derrotas, renascimentos, paixões? A história de um povo é, também, além dos fatos, a história da sua imaginação. Nossa homenagem é para eles, os narradores da alma rio-grandense”. 

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O ex-secretário da Cultura Sergius Gonzaga, que falou na abertura oficial, no dia 2, disse que a galeria recupera um espaço “maravilhoso” para a cidadania no Centro de Porto Alegre, que “é um dos mais lindos do país” entre as capitais.

Professor de Literatura, ele acrescentou que a mostra homenageia escritores que falaram direta ou indiretamente da cidade.

“Quando a arte encontra a arte, a gente só celebra”

Todos os autores vivos homenageados saudaram a iniciativa em mensagens aos artistas. Muitos puderam comparecer pessoalmente: Marô Barbieri falou em público na abertura, agradecendo pelos demais que estiveram na Escadaria: Fernanda Bastos, Cíntia Moscovich, Lélia Almeida, Leticia Wierzchowski, Martha Medeiros, Claudia Tajes e Jane Tutikian.

Também prestigiaram a exposição familiares de Simões Lopes Neto, de Carol Bensimon,  de Caio Fernando Abreu, de João Gilberto Noll e de Oliveira Silveira. 

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Por meio de mensagem à Graça, o escritor Assis Brasil, reconhecido nacionalmente por sua oficina de escrita, disse: “Parabéns pela iniciativa que vem reunir duas áreas artísticas tão próximas e dialogantes. É uma grande honra participar, contando com seu traço persuasivo e raro”. E a escritora Cíntia Moscovich acrescentou: “Quando a arte encontra a arte, a gente só celebra”.

O sucesso da Escadaria, que se consolida como novo point artístico e atrai para as artes visuais um público que não costumava frequentar museus e galerias tradicionais, valeu ao produtor cultural Marcos Monteiro uma homenagem da Câmara de Vereadores por incentivo à cultura e humanização do centro. E ele recebeu a distinção na Escadaria, no meio de artistas e apreciadores das artes visuais.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Marcelo Ferreira

Fonte: Brasil de Fato

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