Vegetal “milagrosa” foi levada à extinção há 2 milénio anos. Uma sobrevivente pode ter sido encontrada

0
5348

(dr) Joaquin Ossorio-Castillo

Sílfio

Um investigador acredita ter redescoberto o sílfio, uma vegetal que se acreditava ter sido levada à extinção há quase 2 milénio anos.

Sílfio era uma vegetal de origem norte-africana, que foi muito usada na Antiguidade Clássica, principalmente na cosmética, na culinária e na medicina. A espécie não foi identificada pela fitologia moderna e crê-se que se encontre extinta. Ou, pelo menos, era o que se pensava.

Graças a um feliz encontro há quase 40 anos, e décadas de investigação, um professor da Universidade de Istambul suspeita ter redescoberto os últimos resquícios da antiga vegetal mais de milénio anos depois de ter sumido dos livros de História, e quase a milénio quilómetros de onde cresceu, escreve a National Geographic.

A vegetal era um resultado principal no negócio e na economia da cidade líbia de Cirene, no Setentrião da África, tanto que foi cunhada em moedas do período para provar a sua valia.

Praticamente todas as partes do sílfio eram valiosas. O talo e as raízes eram comestíveis, atuando também porquê conservantes. Carneiros e ovelhas que consumissem sílfio teriam mesocarpo mais tenra. As flores eram usadas na produção de perfumes. E a suco desidratada poderia ser utilizada em temperos e até afrodisíacos.

Era um dos produtos mais procurados no mundo mediterrâneo. Para os médicos gregos, era uma tratamento para tudo, desde as dores de estômago até à remoção de verrugas. Para os chefs romanos, era crucial para temperar pratos. Durante o reinado de Júlio César, vegetal foram estocadas ao lado de ouro nos tesouros imperiais de Roma, e as suas folhas tinham o mesmo preço da prata.

Plínio, o Velho, afirmou que o imperador Nero consumiu o último talo de sílfio.

Mahmut Miski, da Universidade de Istambul, viu pela primeira vez a vegetal moderna que agora acredita ser o idoso sílfio enquanto fazia a sua investigação de pós-doutoramento há 38 anos. Miski recebeu uma bolsa para recolher espécimes de Ferula, um género de vegetação com flores de uma família (Apiaceae) que inclui cenoura e salsa, e tem a reputação de produzir novos compostos de combate a doenças.

A investigação do professor acabou por revelar que somente um outro espécime desta vegetal tinha sido retraído – em 1909, num lugar 150 milhas a leste do Monte Hasan, onde Misk encontrou o seu réplica – e foi posteriormente identificado porquê uma novidade espécie: Ferula drudeana.

As análises do extrato da raiz identificaram 30 metabólitos secundários. Entre os compostos, muitos dos quais têm propriedades de combate ao cancro, anticoncecionais e anti-inflamatórios, está a shyobunona, que atua nos recetores benzodiazepínicos do cérebro e pode contribuir para o cheiro inebriante da vegetal.

Miski acredita que futuras análises da vegetal revelarão a existência de dezenas de compostos de interesse médico ainda não identificados.

“Encontram-se os mesmos produtos químicos em alecrim, alcachofra, sálvia e gálbano, outra vegetal Ferula”, explica o professor, citado pela National Geographic. “É porquê se combinasse meia dúzia de vegetação medicinais importantes numa única espécie”.

Só numa novidade visitante ao Monte Hasan, em 2012, é que Miski começou a refletir sobre as semelhanças entre a vegetal que encontrou e o sílfio, sobre a qual tinha lido em antigos textos botânicos.

Num cláusula publicado em 2021 na revista Plants, Miski descreveu as semelhanças entre o sílfio e Ferula drudeana: raízes grossas e ramificadas; folhas basais; um talo sulcado com cachos circulares de flores; folhas semelhantes a aipo; e frutas em forma de coração voltado.

Dizia-se que o sílfio original apareceu de repente, depois uma grande chuva. Miski observou que, quando as chuvas chegaram à Capadócia em abril, Ferula drudeana brotou do solo, crescendo até 1,80 metros em pouco mais de um mês.

Embora a Ferula drudeana seja a vegetal que mais se aproxima das descrições do sílfio, há um problema. Antigas descrições sugeriam que o melhor sílfio vinha exclusivamente de uma estreita zona em Cirene, atualmente território líbio.

Por sua vez, o Monte Hasan está quase 1.300 quilómetros a nordeste.

Miski especula que há murado de 2.000 anos, um mercante ou lavrador helênico tentou plantar sementes de sílfio que lhe tinham sido enviadas do setentrião da África.

“Uma vez que leva pelo menos dez anos para amadurecer, podem ter plantado e depois terem-se esquecido. Mas a vegetal continuou a crescer na natureza e acabou por povoar essa pequena extensão”, acredita o perito. “Os descendentes dos agricultores originais não saberiam o que relâmpago seria aquilo”.

  Daniel Costa, ZAP //

Deixe um comentário