Visão-americano em Portugal conquista redes sociais e é prenúncio

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Marco Alves / Facebook

Visão-americano no rio Cávado, junto à ponte medieval de Barcelos.

As redes sociais rejubilam com imagens que mostram o visão-americano em Portugal, em locais porquê Barcelos e Gondomar. Mas, são sinais preocupantes porque, apesar de fofinha, é uma espécie “oportunista e invasora” que constitui uma prenúncio séria à biodiversidade.

Três visões-americanos foram avistados no rio Cávado, junto à ponte medieval de Barcelos, nesta quinta-feira, 21 de Julho. O fotógrafo Marco Alves viu os três animais e conseguiu registar para a posteridade o momento em que um deles parece posar para a sua lente.

“Estava eu, por volta das nove e pouco da noite, a fazer umas fotos de paisagem na ponte de Barcelos, até que me deparo com um estrondo estranho e, quando olho, vejo três visões-americanos ao longe“, conta o fotógrafo no seu perfil do Facebook, onde divulgou a imagem que captou.

Não é a primeira vez que estes animais são notados no rio Cávado, mas os avistamentos parecem cada vez mais recorrentes.

Estes animais também têm sido detectados noutras zonas do país, nomeadamente em Gondomar, região do Porto, onde o fotógrafo de natureza Paulo Ferreira captou um visão-americano na zona dos Moinhos de Jancido, no início deste mês de Julho.

Estes carnívoros de pele preta e reluzente têm um vista fofinho que os torna mormente cativantes – não é à toa que há quem diga que são a “alegria das crianças”! Mas, embora pareçam fofinhos, representam um risco para outras espécies, nomeadamente para animais já ameaçados.

O visão-americano (mustela vison na sua designação científica) integra a “Lista Pátrio de Espécies Invasoras” definida no contexto da Estratégia Pátrio de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030. Isto porque, além de ser uma prenúncio directa porquê predador de algumas espécies, também disputa o território e os recursos alimentares de outras.

Por outro lado, existem riscos devido ao interceptação entre espécies, o que pode completar com o património genético de espécies locais.

Não há dados sobre visão-americano em Portugal desde 2015

Nativo da América do Setentrião, o visão-americano foi introduzido na Europa pela indústria de produção de peles. O seu pêlo reluzente é perfeito para fazer os afamados, e caros, casacos de visão.

Acredita-se que a espécie chegou a Portugal no final da dezena de 1980 depois de uma fuga de animais de uma quinta de geração em Espanha.

Os primeiros exemplares em solo pátrio foram detectados no rio Minho, na fronteira com a Galiza, região onde se localizam 85% das quintas espanholas que se dedicam a gerar visões-americanos, segundo dados da Associação Espanhola de Criadores de Visões (AGAVI) citados pelo site Mundo-Geo.

Presentemente, não se conhece porquê está a espécie distribuída pelo território português, uma vez que “a distribuição do visão-americano em Portugal não é actualizada de uma forma sistematizada desde 2015“, porquê explica o professor Luís Miguel Rosalino da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) em entrevista à revista Wilder.

Naquele ano, foi “implementado o primeiro estudo que visava prezar a expansão deste predador no país”, acrescenta Rosalino, notando que, portanto, “a espécie já se encontrava na maioria dos rios do Minho (Rios Minho, Lima, Cávado e Ave)” e que “já tinha colonizado áreas a levante da Serra do Marão, nomeadamente nos Rios Tâmega e Tua“.

Mais recentemente, o visão-americano também já foi detectado “nas zonas mais orientais de Trás-os-Montes – nomeadamente no Rio Sabor, junto a Torre de Moncorvo, no Rio Angueira a sul de Vimioso e no Douro Internacional, na zona de Miranda do Douro”, destaca ainda o professor da FCUL.

Num estudo publicado em 2014, realizado por investigadores da FCUL, já se assinalava que o visão-americano estava amplamente distribuído no setentrião do país e presente na “maior troço das bacias hidrográficas” do Rio Minho.

Os investigadores sublinhavam ainda que, “depois de uma primeira temporada de expansão lenta (55 km em 20 anos), o visão-americano parece ter expandido o seu alcance rapidamente em exclusivamente 2 anos (45 km)“. Porquê pretexto para esta expansão acelerada recente, a pesquisa avança a implantação do lagostim vermelho do pântano (Procambarus clarkii) na extensão, uma vez que se trata de “um recurso cevar fundamental” para a espécie.

O estudo concluía, assim, que a “erradicação” do visão-americano já não seria “viável”, mas sublinhava a influência de dar início repentino a um “programa de controlo” da população, “preferencialmente em conjunto com as autoridades espanholas”.

Espanha fecha todas as quintas de geração até 2030

A Confederação Hidrográfica do Tejo, entidade espanhola tutelada pelo Ministério da Transição Ecológica, tem lançado alertas sobre o visão-americano, avisando que está “a completar com as espécies locais”.

Ou por outra, aponta a sua “subida capacidade de dissipação e de colonização”, e nota que, “agora, está presente em grande troço da metade setentrião da Península” Ibérica.

Espanha já tem implementada uma estratégia de controle da espécie e o objectivo é fechar todas as quintas de geração de visão-americano do país até 2030, no contexto do Projecto Estratégico do Património Procedente e da Biodiversidade.

Visão-americano é “predador oportunista e invasor”

Mas porquê se justifica esta preocupação com a espécie? É que o visão-americano é “um predador oportunista e generalista – cuja dieta inclui invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos”, porquê explica Luís Miguel Rosalino na Wilder.

“Oriente carnívoro pode ter um impacto importante em espécies de vertebrados que possam já estar ameaçadas, uma vez que a pressão predatória que pode induzir nessas espécies pode levá-las a tornarem-se raras ou mesmo a extinguirem-se localmente”, avisa ainda o professor.

“Por outro lado, sendo um predador exótico e invasor, algumas das espécies de presa que pode consumir nos ecossistemas ibéricos podem ainda não ter desenvolvido estratégias anti-predatórias específicas para fazer face às estratégias de caça dos visões-americanos” e essa “limitação pode tornar as presas nativas mais susceptíveis à predação, porquê é o caso do rato-de-água (Arvicola sapidus)”, acrescenta ainda Rosalino.

Quando se alimentam destas presas, os visões-americanos, também conhecidos por martas, “competem directamente com os carnívoros nativos – entre os quais o toirão (Mustela putorius) e a lontra (Lutra lutra) – que, dessa forma, terão que partilhar os recursos alimentares disponíveis com estes novos predadores”, salienta o professor da FCUL.

Ameaço ao visão-europeu que é vasqueiro

Mas é ainda uma prenúncio ao visão-europeu (Mustela lutreola) que, na Península Ibérica, só existe em Espanha. O visão-europeu é uma espécie “rara e ameaçada” e “o invasor é maior e mais hostil”, nota Rosalino, frisando que “tem um maior sucesso reprodutor, pois gera mais crias por ninhada”, e “uma dieta mais generalista”, sendo “ecologicamente mais versátil”.

Além de tudo isto, “o visão-americano é também um vector de algumas doenças que afectam espécies nativas, o que faz com que a sua presença possa levar ao aumento da prevalência de patologias em espécies porquê o visão-europeu”, diz ainda o professor.

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“Em Abril de 2020 foi detectado, pela primeira vez, um surto de SARS-CoV-2 em visões-americanos de uma quinta de produção na Holanda“, conta ainda, recordando que foram depois detectados outros surtos em países porquê França, Dinamarca, Grécia, Itália, Espanha, Suécia, Polónia e Lituânia, sempre em animais em cativeiro.

Uma vez que, além de transmitirem o vírus a outros animais, também podiam contaminar os humanos, muitos países acabaram por derrotar todos os animais das unidades de geração.

Quanto ao controle da espécie, Luís Miguel Rosalino alerta que “é muito difícil” quando “já há populações estabelecidas e a reproduzir-se”. Nesse caso, “as acções mais eficazes centram-se em impedir a invasão e varar os indivíduos numa temporada inicial do processo”, explica, frisando que depois disso, só se pode “gerir a população”.

Neste momento, na Península Ibérica, “estamos nesta última temporada em que se tentam minimizar os efeitos e controlar algumas populações”, conclui o professor da FCUL.

  Susana Valente, ZAP //

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